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  • Pós-guerra, identidade e equilíbrio: Italo Calvino e O visconde partido ao meio

    Pós-guerra, identidade e equilíbrio: Italo Calvino e O visconde partido ao meio

    Introdução

    Italo Calvino foi um escritor e critico literário italiano, um dos maiores nomes da literatura contemporânea de língua italiana. Nascido em Cuba, seus pais retornaram à Itália quando ele tinha dois anos de idade. Italo cresceu na Ligúria. Sua mãe optou por não inseri-lo na educação católica, assim como fez o que podia para deixá-lo de fora das organizações de jovens fascistas do Mussolini.

    Durante a Segunda Guerra Mundial, Calvino, então na casa dos vinte anos, juntou-se a partidários antifascistas italianos, que se organizavam contra Mussolini desde o início da guerra. Essa atividade política pode ser associada com seus pais, que eram extremamente antifascistas, estes foram presos pelos Guardas Negros de Mussolini durante um período da guerra. Seu pai, em específico, era partidário de ideias anarco-comunistas.

    Após a guerra, continuou seus estudos universitários, na área de agronomia, para agradar a família, que era especializada nessa área. Voltou-se para a Literatura pouco tempo depois. Nesse contexto, começou a frequentar círculos sociais literários de cunho de esquerda, não à toa se filiou ao Partido Comunista – saiu do mesmo após a Invasão na Hungria em 1957, movimento feito por vários nomes da intelectualidade mundial associadas a movimentos de esquerda. Integrou a Einaudi, editora de cunho político comandada por grandes nomes da literatura italiana, como Natalia Ginzburg. Sua tese de doutorado foi sobre Joseph Conrad.

    O visconde partido ao meio

    Em 1952, quando ainda fazia parte da Einaudi e do Partido Comunista, Italo Calvino publicou o primeiro livro da trilogia Os nossos antepassados, o romance chamado de O visconde partido ao meio.

    O romance combina elementos fantásticos com o cenário medieval, tornando-se uma leitura acessível e envolvente. Relembrando muito escritos como as fábulas de George Orwell, contemporâneo de Calvino. O fator do cômico é um elemento central no decorrer do texto, deixando toda a trama, leitura e experiência mais leve, mesmo que há um personagem tão sádico como a metade “Mesquinha” do Visconde Medardo di Terralba.

    O roteiro é simples: o visconde foi lutar em uma guerra contra os otomanos, convocada pelo imperador. Na guerra, Medardo toma um tiro de canhão, se partindo ao meio. Os médicos imperiais pensaram que uma metade do visconde estava completamente destruída, mas na verdade ele havia sido partido ao meio. Conseguem revivê-lo, e aqui já observamos um dos elementos fantásticos. Essa metade que “renasceu” volta para Terralba, seu feudo. Porém, Medardo estava sádico, cruel, doentio e sanguinário. Executava pessoas de maneira arbitrária, tentava matar o seu sobrinho, que é o narrador da história – pelo menos é essa a impressão que o eu lírico nos traz. Queimava leprosos, destruindo suas casas, e por aí vai. Não deixando a comicidade morrer, havendo sempre elementos de humor ácido, uma das características da escrita de Calvino.

    Depois de um tempo, a outra metade aparece – a metade esquerda, a “Boa”. Essa parte ficou escondida em baixo de restos materiais da guerra, foi revivida por vagantes dos campos de batalha. Passa a ajudar os outros e cai nas suas graças, sendo a exata oposição da outra metade. Porém, seu moralismo exacerbado de “certo” e “errado” incomodava os habitantes de Terralba, o que criou uma relação de oposição entre os moradores e os dois viscondes, mesmo que estes últimos fossem contra um ao outro, uma genuína dialética. Quem sofria era os subalternos, agora vivendo com um maníaco ao extremo e um moralista da bondade, também ao extremo. No final, ambas as metades se apaixonam pela mesma pessoa, uma esperta camponesa chamada Pamela. A garota, para por fim nos conflitos em Terralba, causados pelas metades, aceita se casar com ambos, sem que soubessem. Na cerimônia eles se encontram e passam a lutar, acertando um ao outro violentamente. O médico da história entra em cena, através de uma cirurgia fantasiosa une as duas metades novamente, alcançando o equilíbrio na pessoa que Medardo já fora. Medardo di Terralba é então uma espécie de Ying-Yang italiano, entre os extremos de si que acha o seu próprio eu.

    Podemos interpretar a obra de diversas formas, a mais clássica e mais usada na literatura acadêmica tem sido a questão de identidade no mundo pós-segunda guerra, o que alguns chamam de pós-modernidade. Por ser tratar de conceito, irei chamar apenas de pós-segunda guerra.

    O visconde, política e identidade

    Como apontado logo no início, Italo Calvino experimentou o fascismo no seu estado mais puro, na verdade, o vivenciou como política de Estado. Lutou contra os fascistas na Itália e entrou no Partido Comunista Italiano. Ou seja, o autor tinha um lado muito bem definido quando resolveu escrever O Visconde Partido ao Meio.

    É possível identificar uma busca por um “eu” na obra. A resposta que ele nos dá é uma só, bem simples: equilíbrio. Parece até uma sátira, mas não, realmente é isso. No conto vemos um visconde que na verdade são dois, seus extremos, seus lados que o seu “eu inteiro” não iria querer mostrar em condições normais, o reacionarismo e o conservadorismo, o ativo diabólico e o passivo angelical.

    Através do diabólico, Calvino nos apresenta um visconde assassino, cruel e sádico, que, dentro de tudo que fazia uma coisa se sobressaia; ele gostava de cortar tudo ao meio. Deixá-las tal como ele é: dividido ao meio, sem a sua outra metade. Através da força e violência ele criava a sua imagem nas outras criaturas, uma frase que soa forte para os péssimos dias que vivemos hoje.

    A metade esquerda, chamada de Boa, praticava a mesma coisa, só que de forma diferente. Realizava discursos moralistas de bondade para os personagens. As pessoas do feudo o viam de maus olhos. Afinal, quem quer ser incomodado por um projeto de padre enquanto pratica suas imoralidades? Tal como os leprosos do romance. Morando na pequena vila, isolado de todos, na “libertinagem”. Ambas as metades, em seus extremos, tentando moldar aqueles que viviam ao seu redor para sua semelhança, de acordo com seus vieses.

    Vale ressaltar algumas atitudes, como a da metade Mesquinha. Ele chegou a ir aos huguenotes, hereges que viviam no feudo, propondo se converter para a fé destes, dizendo estar cercado de inimigos. Uma enorme brecha para tentar compreender como uma busca para suprimir algo dentro de si, colocando-o em volta de alguma sociabilidade (os huguenotes).

    O narrador, sobrinho do visconde, também está incessantemente buscando uma identidade, aquele pertencimento que nos coloca no mundo, dando sentido ao nosso redor. Sempre estava atrás de companhias para o seu dia-a-dia, seja com o doutor do feudo, com os huguenotes ou com a camponesa Pamela, buscando algo, nem que fosse sozinho, como quando foi pescar antes da metade “Boa” de seu tio aparecer pela primeira vez. Essa busca por um sentido também é feita por Pedroprego, criador de maquinarias do visconde, querendo dar alguma razão na construção de suas engenhosidades assassinas sob a ira de Medardo “Mesquinha”.

    Ao considerarmos o mundo pós-segunda guerra e as experiências de vida de Calvino, podemos entender algumas nuances presentes nessa história. É louvável a facilidade que temos em poder associar o lado “Mesquinho” como uma expressão artística análoga ao Fascismo e seu modus operandi. Para, além disso, a obra não se fecha, abordando a procura por sentido após a segunda guerra em quase todas as personagens: narrador, os dois Medardos, Pedroprego, e até mesmo o pai de Medardo, que estava confinado com suas aves até a sua morte. Debates intensos entre Sartre e Camus contemplavam essa discussão filosófica do mundo europeu, contemporâneos de Calvino.

    A classe popular de Di Terrabalba

    Os subalternos do feudo do visconde são grandes motores da história. Os habitantes do castelo, os guardas, os camponeses, os leprosos e os huguenotes, assim como alguns personagens específicos, como Pamela. Os leprosos vivem isolados, sem a perturbação de ninguém, assim como os huguenotes. Esses últimos se armam para enfrentar diretamente ambos os viscondes em caso de ataques. A vila dos leprosos por sua vez é um ótimo exemplo de periferia: indesejados e excluídos. A festividade constante deles talvez seja um estereótipo em cima disso. Interessante lembrar que a metade Mesquinha chegou a incendiar o lugar.

    Os guardas, que, a considerar a temática medieval eram pobres camponeses ou parentes, seguem o mesmo padrão de insubordinação ao absurdo do irreal praticado pelas violências da metade cruel do visconde – tentaram organizar um golpe, foi mal sucedido pela incapacidade da metade Boa aderir a violência – podemos ligar isso com a vida de resistência armada de Calvino contra os fascistas. Pamela, a camponesa, é um agente crucial para o desfecho. A importância destes grupos deve ser destacada, sempre estão se articulando para se defenderem de ambos os viscondes.

    Conclusão

    O conto de Italo Calvino é o primeiro de uma trilogia não necessariamente ligada, mas com diálogos entre si (os outros contos são: O barão nas árvores e O cavaleiro inexistente). A necessidade e procura por uma identidade é um dos fatores chave da trilogia. Essa falta de identidade pode-se correlacionar com os debates filosóficos a respeito do significado da vida, como dito anteriormente, coincidiam com o mundo pós-guerra. Um ponto que não morreu até os dias de hoje, na nossa sociedade doente que se definha cada vez mais através do terror, exploração e consumo.

    A vida de Calvino é destacável ao analisarmos o romance, seja no combate aos fascistas, na intelectualidade comunista, ou sua tolerância religiosa. Porém não quer dizer que seja simplesmente sobre isso. A vida política conturbada da Itália após a segunda guerra mundial, havendo existido chances reais de uma guerra civil durante a Guerra Fria, pode ter sido grande inspiração para o autor. Ele vivia e estava vendo a morte do fascismo clássico, a ascensão de ideais de esquerda, e principalmente, o aumento exponencial da “democracia cristã”, dialogando diretamente com a questão da identidade individual. Poderíamos interpretar como a metade “Boa” um reflexo disso?

    O romance é ótimo e vale a leitura, o cômico é presente de início ao fim. Uma leitura aprofundada pode nos trazer mais pontos a se pensar sobre a sociedade europeia após a segunda guerra, e principalmente, da sociedade italiana, aquela no limbo com o terror fascista pairando nas cinzas voantes do horizonte.

    Referências e bibliografia

    Calvino, Italo. O visconde partido ao meio. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

    Gomes, N. G. B.; Brito, L. O duplo visconde partido ao meio de Italo Calvino. Revista Letras, v. 92, 31 dez. 2015.