Autor: Gustavo França Sperandio

  • Pós-guerra, identidade e equilíbrio: Italo Calvino e O visconde partido ao meio

    Pós-guerra, identidade e equilíbrio: Italo Calvino e O visconde partido ao meio

    Introdução

    Italo Calvino foi um escritor e critico literário italiano, um dos maiores nomes da literatura contemporânea de língua italiana. Nascido em Cuba, seus pais retornaram à Itália quando ele tinha dois anos de idade. Italo cresceu na Ligúria. Sua mãe optou por não inseri-lo na educação católica, assim como fez o que podia para deixá-lo de fora das organizações de jovens fascistas do Mussolini.

    Durante a Segunda Guerra Mundial, Calvino, então na casa dos vinte anos, juntou-se a partidários antifascistas italianos, que se organizavam contra Mussolini desde o início da guerra. Essa atividade política pode ser associada com seus pais, que eram extremamente antifascistas, estes foram presos pelos Guardas Negros de Mussolini durante um período da guerra. Seu pai, em específico, era partidário de ideias anarco-comunistas.

    Após a guerra, continuou seus estudos universitários, na área de agronomia, para agradar a família, que era especializada nessa área. Voltou-se para a Literatura pouco tempo depois. Nesse contexto, começou a frequentar círculos sociais literários de cunho de esquerda, não à toa se filiou ao Partido Comunista – saiu do mesmo após a Invasão na Hungria em 1957, movimento feito por vários nomes da intelectualidade mundial associadas a movimentos de esquerda. Integrou a Einaudi, editora de cunho político comandada por grandes nomes da literatura italiana, como Natalia Ginzburg. Sua tese de doutorado foi sobre Joseph Conrad.

    O visconde partido ao meio

    Em 1952, quando ainda fazia parte da Einaudi e do Partido Comunista, Italo Calvino publicou o primeiro livro da trilogia Os nossos antepassados, o romance chamado de O visconde partido ao meio.

    O romance combina elementos fantásticos com o cenário medieval, tornando-se uma leitura acessível e envolvente. Relembrando muito escritos como as fábulas de George Orwell, contemporâneo de Calvino. O fator do cômico é um elemento central no decorrer do texto, deixando toda a trama, leitura e experiência mais leve, mesmo que há um personagem tão sádico como a metade “Mesquinha” do Visconde Medardo di Terralba.

    O roteiro é simples: o visconde foi lutar em uma guerra contra os otomanos, convocada pelo imperador. Na guerra, Medardo toma um tiro de canhão, se partindo ao meio. Os médicos imperiais pensaram que uma metade do visconde estava completamente destruída, mas na verdade ele havia sido partido ao meio. Conseguem revivê-lo, e aqui já observamos um dos elementos fantásticos. Essa metade que “renasceu” volta para Terralba, seu feudo. Porém, Medardo estava sádico, cruel, doentio e sanguinário. Executava pessoas de maneira arbitrária, tentava matar o seu sobrinho, que é o narrador da história – pelo menos é essa a impressão que o eu lírico nos traz. Queimava leprosos, destruindo suas casas, e por aí vai. Não deixando a comicidade morrer, havendo sempre elementos de humor ácido, uma das características da escrita de Calvino.

    Depois de um tempo, a outra metade aparece – a metade esquerda, a “Boa”. Essa parte ficou escondida em baixo de restos materiais da guerra, foi revivida por vagantes dos campos de batalha. Passa a ajudar os outros e cai nas suas graças, sendo a exata oposição da outra metade. Porém, seu moralismo exacerbado de “certo” e “errado” incomodava os habitantes de Terralba, o que criou uma relação de oposição entre os moradores e os dois viscondes, mesmo que estes últimos fossem contra um ao outro, uma genuína dialética. Quem sofria era os subalternos, agora vivendo com um maníaco ao extremo e um moralista da bondade, também ao extremo. No final, ambas as metades se apaixonam pela mesma pessoa, uma esperta camponesa chamada Pamela. A garota, para por fim nos conflitos em Terralba, causados pelas metades, aceita se casar com ambos, sem que soubessem. Na cerimônia eles se encontram e passam a lutar, acertando um ao outro violentamente. O médico da história entra em cena, através de uma cirurgia fantasiosa une as duas metades novamente, alcançando o equilíbrio na pessoa que Medardo já fora. Medardo di Terralba é então uma espécie de Ying-Yang italiano, entre os extremos de si que acha o seu próprio eu.

    Podemos interpretar a obra de diversas formas, a mais clássica e mais usada na literatura acadêmica tem sido a questão de identidade no mundo pós-segunda guerra, o que alguns chamam de pós-modernidade. Por ser tratar de conceito, irei chamar apenas de pós-segunda guerra.

    O visconde, política e identidade

    Como apontado logo no início, Italo Calvino experimentou o fascismo no seu estado mais puro, na verdade, o vivenciou como política de Estado. Lutou contra os fascistas na Itália e entrou no Partido Comunista Italiano. Ou seja, o autor tinha um lado muito bem definido quando resolveu escrever O Visconde Partido ao Meio.

    É possível identificar uma busca por um “eu” na obra. A resposta que ele nos dá é uma só, bem simples: equilíbrio. Parece até uma sátira, mas não, realmente é isso. No conto vemos um visconde que na verdade são dois, seus extremos, seus lados que o seu “eu inteiro” não iria querer mostrar em condições normais, o reacionarismo e o conservadorismo, o ativo diabólico e o passivo angelical.

    Através do diabólico, Calvino nos apresenta um visconde assassino, cruel e sádico, que, dentro de tudo que fazia uma coisa se sobressaia; ele gostava de cortar tudo ao meio. Deixá-las tal como ele é: dividido ao meio, sem a sua outra metade. Através da força e violência ele criava a sua imagem nas outras criaturas, uma frase que soa forte para os péssimos dias que vivemos hoje.

    A metade esquerda, chamada de Boa, praticava a mesma coisa, só que de forma diferente. Realizava discursos moralistas de bondade para os personagens. As pessoas do feudo o viam de maus olhos. Afinal, quem quer ser incomodado por um projeto de padre enquanto pratica suas imoralidades? Tal como os leprosos do romance. Morando na pequena vila, isolado de todos, na “libertinagem”. Ambas as metades, em seus extremos, tentando moldar aqueles que viviam ao seu redor para sua semelhança, de acordo com seus vieses.

    Vale ressaltar algumas atitudes, como a da metade Mesquinha. Ele chegou a ir aos huguenotes, hereges que viviam no feudo, propondo se converter para a fé destes, dizendo estar cercado de inimigos. Uma enorme brecha para tentar compreender como uma busca para suprimir algo dentro de si, colocando-o em volta de alguma sociabilidade (os huguenotes).

    O narrador, sobrinho do visconde, também está incessantemente buscando uma identidade, aquele pertencimento que nos coloca no mundo, dando sentido ao nosso redor. Sempre estava atrás de companhias para o seu dia-a-dia, seja com o doutor do feudo, com os huguenotes ou com a camponesa Pamela, buscando algo, nem que fosse sozinho, como quando foi pescar antes da metade “Boa” de seu tio aparecer pela primeira vez. Essa busca por um sentido também é feita por Pedroprego, criador de maquinarias do visconde, querendo dar alguma razão na construção de suas engenhosidades assassinas sob a ira de Medardo “Mesquinha”.

    Ao considerarmos o mundo pós-segunda guerra e as experiências de vida de Calvino, podemos entender algumas nuances presentes nessa história. É louvável a facilidade que temos em poder associar o lado “Mesquinho” como uma expressão artística análoga ao Fascismo e seu modus operandi. Para, além disso, a obra não se fecha, abordando a procura por sentido após a segunda guerra em quase todas as personagens: narrador, os dois Medardos, Pedroprego, e até mesmo o pai de Medardo, que estava confinado com suas aves até a sua morte. Debates intensos entre Sartre e Camus contemplavam essa discussão filosófica do mundo europeu, contemporâneos de Calvino.

    A classe popular de Di Terrabalba

    Os subalternos do feudo do visconde são grandes motores da história. Os habitantes do castelo, os guardas, os camponeses, os leprosos e os huguenotes, assim como alguns personagens específicos, como Pamela. Os leprosos vivem isolados, sem a perturbação de ninguém, assim como os huguenotes. Esses últimos se armam para enfrentar diretamente ambos os viscondes em caso de ataques. A vila dos leprosos por sua vez é um ótimo exemplo de periferia: indesejados e excluídos. A festividade constante deles talvez seja um estereótipo em cima disso. Interessante lembrar que a metade Mesquinha chegou a incendiar o lugar.

    Os guardas, que, a considerar a temática medieval eram pobres camponeses ou parentes, seguem o mesmo padrão de insubordinação ao absurdo do irreal praticado pelas violências da metade cruel do visconde – tentaram organizar um golpe, foi mal sucedido pela incapacidade da metade Boa aderir a violência – podemos ligar isso com a vida de resistência armada de Calvino contra os fascistas. Pamela, a camponesa, é um agente crucial para o desfecho. A importância destes grupos deve ser destacada, sempre estão se articulando para se defenderem de ambos os viscondes.

    Conclusão

    O conto de Italo Calvino é o primeiro de uma trilogia não necessariamente ligada, mas com diálogos entre si (os outros contos são: O barão nas árvores e O cavaleiro inexistente). A necessidade e procura por uma identidade é um dos fatores chave da trilogia. Essa falta de identidade pode-se correlacionar com os debates filosóficos a respeito do significado da vida, como dito anteriormente, coincidiam com o mundo pós-guerra. Um ponto que não morreu até os dias de hoje, na nossa sociedade doente que se definha cada vez mais através do terror, exploração e consumo.

    A vida de Calvino é destacável ao analisarmos o romance, seja no combate aos fascistas, na intelectualidade comunista, ou sua tolerância religiosa. Porém não quer dizer que seja simplesmente sobre isso. A vida política conturbada da Itália após a segunda guerra mundial, havendo existido chances reais de uma guerra civil durante a Guerra Fria, pode ter sido grande inspiração para o autor. Ele vivia e estava vendo a morte do fascismo clássico, a ascensão de ideais de esquerda, e principalmente, o aumento exponencial da “democracia cristã”, dialogando diretamente com a questão da identidade individual. Poderíamos interpretar como a metade “Boa” um reflexo disso?

    O romance é ótimo e vale a leitura, o cômico é presente de início ao fim. Uma leitura aprofundada pode nos trazer mais pontos a se pensar sobre a sociedade europeia após a segunda guerra, e principalmente, da sociedade italiana, aquela no limbo com o terror fascista pairando nas cinzas voantes do horizonte.

    Referências e bibliografia

    Calvino, Italo. O visconde partido ao meio. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

    Gomes, N. G. B.; Brito, L. O duplo visconde partido ao meio de Italo Calvino. Revista Letras, v. 92, 31 dez. 2015.

  • Necropolítica: o método político de morte da modernidade

    Necropolítica: o método político de morte da modernidade

    Sobre necropolítica

    Talvez você se pergunte, “o que diabos é necropolítica?”, termo cunhado pelo historiador, filósofo e teórico político Achille Mbembe para definir uma nova política que surgiu na modernidade. Mbembe, hoje professor na Universidade de Witwatersrand, em Joanesbugo, na África do Sul, fez esta tese política em meados de 1990. Essa política está presente nos dias de hoje, e talvez até na sua vida, meu caro leitor.

    Traçando aspectos históricos e também contemporâneos, a Necropolítica está no dia a dia de muitas pessoas pelo Brasil a fora. A ideia é baseada na política de morte e terror estabelecida nos conceitos racistas e eurocêntricos (a Europa como a salvação da civilização). Exemplo simples, como mostrado por Mbembe, é a própria colonização na África e na América, onde a morte é usada para controle social e estabelecimento da ordem dos reis e rainhas europeus. O genocídio do Congo, feito pelos belgas contra milhões de africanos, é um claro exemplo da política de morte.

    Podemos levantar esse terror na Revolução Francesa, quando os rebeldes praticavam atos muito violentos após séculos de opressão social e econômica dos nobres da aristocracia. O “grande medo” no interior da França exemplifica muito bem esse pensamento, quando milhares de camponeses, com medo das retaliações da nobreza no decorrer da revolução, invadiram castelos e cometeram massacres contra as pessoas de “sangue azul” (sangue nobre).

    Esse terror de violência se fundiu com as ideias de racionalidade do Iluminismo, que pregavam uma política baseada na razão, e não mais em outros fatores, como religião. Então, para entendermos a Necropolítica, temos que compreender que não são apenas as ideias de violência, mas estas com ideias de racionalidade, para justificar a própria violência. Por isso podemos, juntando a questão de violência com a construção de uma legitimação para ela, podemos rastrear esse tipo de política até os dias atuais, algo que será mostrado mais à frente.

    Nesse sentido, a colonização na África durante a segunda metade do século XIX estabeleceu este ideal político para as relações entre colonizador e colonizado. Há uma construção baseada na racionalidade, envolvendo o racismo e também o eurocentrismo para definir populações africanas, por exemplo, como povos sem história, logo, “bárbaros”, “não civilizados”, entre outros absurdos construídos e inventados. Assim, a ocorrência de massacres, chacinas, genocídios e até a prática da escravidão, são frequentes. Os povos europeus perpetuam, assim, sua Necropolítica. Como dito por Mbembe, a terra colonial não tem lei, é terra de ninguém, não há povo “civilizado”, assim, é legitimado o discurso genocida dos europeus. É algo tão forte no imaginário do soldado europeu que, quando ele executa um homem africano, ele não entende o que está fazendo como crime, e sim como algo natural.

    A escravidão também se constitui como uma prática de Necropolítica. Para Mbembe, reduzir uma pessoa livre para a condição de escravizado era como matar esta pessoa livre, algo que aconteceu com milhões de negros africanos e indígenas. Usando uma citação do próprio autor: “A vida de um escravo, em muitos aspectos, é uma forma de morte em vida.”

    Para o professor Mbembe, essa prática tem seu auge na Segunda Guerra Mundial, quando, segundo ele, os nazistas estabelecem as práticas de política de morte da África e América na Europa, agora sob os moldes da ideologia racial nazista, que acreditava na inferioridade judia, cigana, eslava, entre outros, além da perseguição a grupos políticos e de gênero. Por este motivo podemos entender o choque europeu com o Holocausto: era a sua política de colonização no seu próprio continente.

    Essa ideia política também é atrelada ao Apartheid e ao genocídio palestino perpetrado pelos israelitas sionistas. Aqui, Mbembe traça novos meios de executar essa política de morte, baseada na vigilância, estabelecimento de colônias, postos de controles, pequenos grupos armados, normalmente especialistas de ambientes fechados, além de segregar os marginalizados em locais específicos. Aqui a questão assimétrica é enorme. Assimétrica seria a relação de duas representações, seja Estados, grupos armados, etc. Um deles tendo a ser muito mais poderoso que o outro, o que vemos e muito nas guerras modernas.

    Assim, Israel usa a racionalidade de suposta inferioridade palestina, ou de seres bárbaros, para legitimar sua política de sangue, baseada nos massacres, chacinas e bombardeios contra civis, ações muitas vezes apoiada pela grande mídia, em específico a ocidental.

    Consegue pensar isso na sua vida? Esse método de política é extremamente similar com as políticas brasileiras em relação ao combate ao crime, como violência policial. As UPPs no Rio de Janeiro, estabelecendo vigilância dos cidadãos das favelas, que ficam na mercê do Estado, “perdendo” o direito mesmo vivendo em um Estado de Direito. Além das chacinas cometidas pelas milícias e grupos armados – normalmente as Polícias Militares estaduais – contra a população dessas áreas urbanas marginalizadas. Exemplos extremamente recente são os crimes cometidos pela Polícia Militar de São Paulo contra trabalhadores de bairros periféricos da Baixada Santista, vitímas de operações que visavam o crime organizado da região, mas que na prática recai uma violência contra inocentes. A operação no litoral paulista já superou o número de mortos do Carandiru, sendo a operação mais homicida da polícia militar paulista desde 1992, um claro exemplo de violência policial.

    É notável que as vítimas desse método operacional no Brasil são negras, e os que não são negras são pobres, majoritariamente cidadãos de periferias. Interessante notar o aspecto violento da polícia perante aos negros e pobres, mas sendo o contrário quando o cidadão abordado é o oposto, branco e rico, como o caso de desacato ao policial que foi cumprir um mandato no Alphaville, contra um empresário. Em dados levantados pela Folha é possível identificar uma população carcerária de maioria negra, sendo fruto direto dessa relação do Estado com as periferias. Seria essa a forma que o Estado brasileiro, fundado na escravidão, encontrou de continuar perpetuando o poder e controle social? Jogar a população ao crime, torturar e matar.

    Assim, entendemos algo fundamental para a Necropolítica no Brasil: o racismo.

    Uma das ideias de Mbembe, é que a Necropolítica moderna se baseia no estabelecimento do Estado de Exceção, ignorando o Estado de Direito, porém, ao mesmo tempo, transformando o Estado de Direito em um Estado de Exceção. O Estado de Exceção seria quando o governo, acionado via decreto, tomaria controle de muitos poderes públicos, para estabelecer a ordem social. Esse conceito político foi adotado por Carl Schmitt na velha república de Weimar, na Alemanha, sendo um contraponto do Estado de Direito, que nos termos básicos significa o Estado que garante os direitos de seus cidadãos.

    Assim, discernirmos que a Necropolítica, a política da morte, é um conceito político fundamental para o nosso mundo moderno. Entendê-lo é necessário para a melhor compreensão do que acontece nas periferias de nosso país.

    Referências e bibliografia:

    MBEMBE, Achille. Necropolítica. Rio de Janeiro: Arte & Ensaios, n. 32, p. 122–151, 2016.

    https://revistacult.uol.com.br/home/necropolitica-a-brasileira/

    https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/video-morador-de-alphaville-humilha-policiais-durante-ocorrencia-eu-ganho-r-300-mil-por-mes-seu-mda/

    https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2024-03/relatora-da-onu-diz-que-israel-comete-genocidio-na-faixa-de-gaza

    https://www.gazetasp.com.br/estado/veja-quem-sao-os-mortos-identificados-em-operacao-policial-na-baixada/1127279/

    https://www.brasildefato.com.br/2023/11/16/a-cada-100-mortos-pela-policia-em-2022-65-eram-negros-mostra-estudo

    https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/mortes-causadas-pela-policia-militar-aumentam-86-no-terceiro-trimestre-em-sp/

    https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-04/numero-de-civis-mortos-para-cada-policial-assassinado-mais-que-dobrou

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2023/07/brasil-tem-832-mil-presos-populacao-carceraria-e-maior-que-a-de-99-dos-municipios-brasileiros.shtml

    https://valor.globo.com/politica/noticia/2024/03/07/cenrio-na-baixada-santista-de-massacre-e-crise-humanitria-diz-ouvidor-da-polcia-de-sp.ghtml

    https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2024/03/11/baixada-santista-familias-contestam-versoes-de-pms-em-boletins-de-ocorrencia.ghtml

    https://canalcienciascriminais.com.br/massacre-policial-na-baixada/

    https://almapreta.com.br/sessao/cotidiano/nao-me-mata-senhor-mesmo-apos-suplicar-pela-vida-jovem-foi-morto-por-policiais-na-baixada-santista/

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/02/catador-de-lixo-esta-entre-os-mortos-pela-pm-na-baixada-santista.shtml

  • A ditadura militar argentina de 1966

    A ditadura militar argentina de 1966

    Introdução

    A Argentina acabou de terminar um processo eleitoral para a presidência do país, em mais uma crise política, econômica e social. No meio do século passado, era um dos países com menor índice de analfabetismo na América do Sul e com grande participação da classe trabalhadora no PIB nacional. Na virada do século, o que vemos é diferente, um país afundado em dívidas externas, inflação e um desencanto político. As ditaduras da segunda metade do século XX e as medidas neoliberais posteriores tem forte influência no caos que se tem nos dias de hoje na terra de nossos “hermanos”. Aqui, buscarei explicar um pouco sobre a ditadura militar de 1966, outro artigo também será dedicado exclusivamente a ditadura de 1976, que completará este artigo, assim como este completará o outro.

    Entre 1955 e 1983 a Argentina passou por quatro golpes militares, um em 55, o segundo em 62, o terceiro em 66 e o último em 76. 1983 é marcado como o fim desta sequência, com a redemocratização. Os dois últimos contabilizam como golpes de caráter definitivo, diferente dos dois primeiros, que se caracterizam como golpes de caráter provisório, com os militares passando o poder após uma eleição fingidamente democrática, como a cartilha da democracia burguesa pede. De qualquer foma, todos aconteceram pelo mesmo motivo: impedir que o governo estivesse nas mãos dos peronistas.

    Fazendo uma rápida passagem na história política da Argentina, podemos ver a formação do bipartidarismo, com o nascimento do movimento chamado radicalismo, que ficaram no poder entre 1916 até 1930, quando ocorreu o primeiro golpe de estado da história da Argentina. Após, nenhum presidente da frente radicalista conseguiu terminar seu mandato, sendo derrubados por golpes, incluindo o golpe militar de 1966, chamado de “Revolução Argentina”, com os radicais voltando ao poder em 1983, na redemocratização do país, em uma aliança com o partido de esquerda Frespo. Na década de 40 houve a ascensão do peronismo, a segunda vertente da frente bipartidária, com o militar Juan Domingo Perón, cujo alicerce político era o sindicalismo e justicialismo. Durante o período do peronismo, a CGT, Confederação Geral do Trabalho, organização compartilhada entre socialistas e sindicalistas, cresceu rapidamente, triplicando o número de sindicatos e tendo quase todos os operários do país organizados em sindicatos. Com as ditaduras de 66 e 76, tanto a CGT quanto os sindicatos sofreram grande repressão e perseguição, sendo desarticulados diversas vezes. A figura de Perón é vista de forma controversa pela sociedade argentina, com muitos o chamando de herói da nação, e muitos outros o considerando até mesmo um fascista. Durante seu governo, esteve presente nas estatizações de diversas companhias, além de uma forte presença nas políticas sociais, eliminando a margem de desemprego e tratando de doenças que afetavam as classes mais pobres. Perón não conseguiu fazer da indústria o polo econômico do país, que foi um de seus objetivos. Além disso, buscou distanciar o Estado da Igreja. Isso tudo gerou uma espécie de bem estar capitalista, já que dialogava com a burguesia nacional. Esse bem estar, porém, não durou por muito tempo.

    O golpe de 1955 e 1962

    Em 1951, os militares começaram seu movimento contra Perón, dando início ao que ficou conhecido em 1955 como “Revolução Libertadora”, exilando o então presidente para fora do país. Este ano (1955) ficou marcado por diversos confrontos militares e escaramuças, onde houve centenas de mortos e milhares de feridos, incluindo uma batalha área pela região de Buenos Aires, além do triste bombardeio na Praça de Maio, quando uma multidão em protesto, apoiando o então presidente Perón, foi atacada por um bombardeio aéreo, deixando mais de trezentas pessoas mortas. O bombardeio também atacou a casa Rosada que era guardad por peronistas armados. Este crime contra a humanidade ficou no limbo da história argentina por anos a fio, nem mesmo quando Frondizi assumiu o governo em 1958 houve alguma menção as vitímas assassinadas. Os primeiros países a reconhecerem este governo militar argentino foram Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Um dos motivos dos lobbys internos contra Perón era justamente a influência estrangeira, buscando quebrar a forma econômica, que por mais que fosse voltada para um capitalismo, era nacionalista, além da grande força da classe trabalhadora dentro da economia argentina, o que prejudicava o superlucro que as empresas estrangeiras queriam em território não só da Argentina como de toda a América Latina. O General Eduardo Lonardi, que assumiu o governo do país após o golpe, abandonou o posto alguns meses depois, após o setor liberal dos golpistas ganharem força dentro do governo. Durante esse governo de 1955, começou-se um processo econômico de “desperonização” da economia, com o novo governo abordando o desenvolvementismo, que pregava uma modernização industrial nacional por vias autoritárias através do estado, além de não promover a estatização como antes. Após o golpe, Perón se exilou em Madri.

    Região da Praça de Maio e da Casa Rosada após bombardeios da força aérea argentina, que resultaram em mais de trezentas mortes.

    Esse golpe foi formentado pela ala antiperonista da elite política argentina, porém, nela havia duas frentes que não seguiam a mesma linha e lógica de governo: a nacionalista, sendo essa a mais radical e de uma direita mais acentuada; e a liberal, sendo essa mais amena. Em 1957 e 1958 houve eleições para os cargos do executivo do governo argentino. A frente liberal já havia rachado, se dividindo em duas frentes, liderada por Arturo Frondizi na UCRI (União Cívica Radical Intransigente) e Ricardo Balbín, na UCRP (União Cívica Radical do Povo). Frondizi se consagrou nas eleições. Os militares, com medo de um passado de ideais de esquerda de Frondizi, atrasaram a transição de poder. O general Aramburu, no poder desde a saída de Lonardi, facilitou no que pode e assim ocorreu a mudança de governo.

    Durante esses três anos, atos repressivos ocorreram, como as mortes no levante peronista de 1956, ou as ações de intervenção nos altos cargos das universidades argentinas. Além de guinar forçadamente a economia argentina em privatizações, abrindo o mercado para o capital estrangeiro, em busca de investimento externos.

    O governo de Frondizi foi marcado pela busca de um diálogo entre os peronistas e antiperonistas, mas principalmente, entre a direita e antiperonistas, pela força que estes tinham dentro do exército. Na economia, Rogelio Frigerio assumiu os cargos, seguindo uma linha pragmática para a realidade argentina, porém, liberal. No seu passado universitário, fez parte de movimentos de esquerda, e por este motivo suas ações eram visadas pela ala direitista do parlamento. não tardou muito para a sua queda. Em busca de se manter no poder, Frondizi conseguiu dialogar com a ala de centro-direita e direita, conseguindo se reeleger em 1960. Mesmo assim, sua base original, a UCRI, estava desorientada e fraca, com o poder sendo estabelecido com alianças de Frondizi com setores da direita e antiperonistas. Aliado a isso, Frondizi também possibilitou a criação de universidades particulares no país, prato cheio para os católicos, que estavam fora de cena desde a ascensão de Perón. Muitos universitários foram as ruas protestar, porém, a lei foi aceita e os católicos passaram a serem figuras centrais na educação do país, o que acarretou em um apoio a Frondizi.

    Em busca de estabelecer seu poder, Frondizi buscava dialogar com os setores que não pertenciam a sua corrente da UCRI, muito por causa da perseguição das forças armadas em volta de Perón, que buscavam há qualquer custo evitar a sua volta ao poder argentino. Além da associação de partidos e movimentos de esquerda ao próprio peronismo, mesmo que não fossem correlatos, principalmente os comunistas. Isso sucedeu no novo golpe de 1962, nas eleições provinciais, com a eleição do peronista Framini para o governo de Buenos Aires, dando a ele controle direto de todas forças policiais. Houve um regime militar provisório, até a transição de poder para Umberto Illia (1963), o último presidente eleito antes da primeira ditadura militar argentina, em 1966.

    Umberto Illia foi favorecido pela abstenção dos peronistas na votação, porém chegava com pouca parcela da votação total dos argentinos. Tanto na sua eleição, como nas outras depois do golpe de 55, podemos ver o enorme poder que o peronismo ainda tinha sobre uma grande parcela da população, favorecidos pelas políticas nacionalistas e justicialistas de Perón. É interessante notar a dualidade das políticas peronistas, mesmo nesta época, onde transitava entre um conservadorismo capitalista de direita e um estado socialista de esquerda. Nos dias atuais as ações dos peronistas são voltadas para o liberalismo, não tanto extremista como o atual presidente Milei.

    Sob o governo de Illia, a Argenrina começava a entrar no calor das revoluções que começavam a se espalhar pela América Latina devido a Revolução Cubana em 1959, com a tomada de poder por Fidel Castro na ilha caribenha. A intelectualidade argentina começou a cultivar ideais socialistas, porém, muito voltados para o nacionalismo, tão forte que chegou a fisgar católicos e até mesmo alguns errantes da direita. Perón, vendo isso como uma grande oportunidade, instigou essas ideias pelos seus apoiadores ainda no país, planejando um retorno de Madri, onde até então estava exilado desde 1955. Isso era ainda mais forte entre jovens universitários, principalmente os da classe média alta e classe alta, visando criticas aos valores tradicionais burgueses. Além, sindicalistas se colocavam contra o governo. Protestos e greves por melhores condições de salários ocorriam com frequência, até mesmo casos de sequestros de empresários, sendo medidas extremas onde os operários, sem nenhum respaldo estatal, estavam expostos. Nesse cenário, Juan Carlos Onganía, general do exército, buscava dialogar com todos os lados, incluindo os peronistas. Porém, com as eleições de 1966, os peronistas, reformados por novos ideais e inflamados pela Revolução Cubana, davam parecer de um triunfo futuro nas eleições governamentais de 1967, podendo então ter controle de forças de segurança. Os militares, preocupados com esta ascensão e uma futura volta de Perón, decidiram tomar o poder novamente, desta vez para ficar. Onganía liderou o golpe e assumiu a Casa Rosada ainda em 1966. Esse golpe ganhou a alcunha de “Revolução Argentina”, assim como o golpe de 55, também recebeu o nome de “revolução”. Interessante, afinal, este termo é associado a revoluções sociais iniciadas pela classe trabalhadora, algo que não esteve presente nem em 55 nem em 66.

    Todos os golpes desde 1955 tinham como objetivo impedir a chegada de Perón no poder, no caso de 55, do próprio continuar no governo. Suas ações populares, além da quebra com a Igreja, colocou-o como inimigo da direita argentina, mesmo que o nacionalismo fosse uma de suas bases governamentais. A burguesia se consagraria sem as políticas justicialistas, e o principal, abrindo o mercado para o capital estrangeiro, facilitando a exploração de trabalho, como ocorreu com Onganía. Essa ruptura política gerou muita repressão e perseguição. Algo que já ocorria desde os governos de Perón, porém agora era intensificada.

    A ditadura de 1966-1973 e o Cordobaço

    O governo de 1966 teve vista grossa por parte dos peronistas, com o então exilado Perón aconselhando “deixar acontecer para ver no que dava”. No entanto, o que se deu a seguir foi um início de uma forte repressão política, primeiramente nas universidades, chegando a ocorrer o assassinato do estudante Santiago Pampillón, ainda em 1966.

    As políticas econômicas de Vasena favoreceram a burguesia estadunidense, além dele mesmo, diretor de diversas empresas estrangeiras. Quanta ironia. As políticas eram alinhadas com o ideal da doutrina Monroe, onde, junto aos golpes na Bolívia, Brasil e posteriomente no Chile, as leis de proteção trabalhista eram eliminadas sistematicamente, além de alinhar ideias econômicas nacionais ao capital estrangeiro. Tudo pela falsa democracia estadunidense, é claro. Segundo o historiador e economista Osvaldo Coggiola, professor da Universidade de São Paulo, Vasena acentuou o desemprego, junto a diminuição do salário real (salário minímo), o que aumentou a produtividade, junto a superexploração de trabalho.

    Nessa perspectiva, o investimento estrangeiro no setor industrial do país acabou sendo desacelerado, entre 67 e 69, teve um valor na casa dos 26 milhões de dólares, o retorno para fora no entanto, entre 66 a 71, foi de dois bilhões de dólares. Com isso podemos entender a ligação econômica das ditaduras com a política imperialista dos yanques, que perdura até os dias de hoje, inclusive no recém eleito presidente argentino. As políticas governamentais afetaram muitos operários, extinguindo dias de folga e forçando salários baixos, o que favorecia as grandes empresas. Não tardou muito para estourar greves, chegando no ápice com o Cordobaço em 1969.

    Após a Revolução Cubana, ideias começaram a circular por toda a América Latina, ideias anti-imperialistas, visando uma revolução social como em Cuba. Não tarda muito para entender o apoio massivo dos estadunidenses para tantas ditaduras por toda a América Latina após o fracasso do Tio Sam de impedir Fidel Castro de tomar o poder na ilha caribenha. Essas ideias na Argentina já eram amadurecidas entre a esquerda, como no grupo guerrilheiro e nacionalista chamado de Montoneros. Esse grupo apresentava uma característica extremamente interessante que o diferencia de muitos grupos armados de esquerda: o catolicismo. Por essas definições específicas, no futuro o grupo se integrou aos peronistas combativos. Além deles, os sindicatos também tiveram influência do fidelismo. Agora, fora da esfera peronista, os sindicatos passavam a tomar um rumo de uma esquerda mais extrema, como René Salamanca, sindicalista combativo, de viés marxista, uma das figuras chaves do Cordobaço, assim como Atilio Lopez, grande nome dessa esquerda argentina, que viria a ser assassinado pelo governo peronista de Isabel. Essas ideias oriundas da Revolução Cubana (assim como da Russa) influenciaram também os peronistas. Importante citar também o nascimento da ERP, o Exército Revolucionário do Povo, grupo armado ideologicamente ligado ao trotskismo. Viria a ser uma pedra no sapato dos militares.

    No dia 29 de maio de 1969 acontecia o “Cordobaço”. Um dos chefes da CGT propôs uma greve para expressar o descontentamento em relação as políticas patronais do governo que favoreciam as grandes empresas. A CGT estava desarticulada devido a sua divisão, sendo duas alas, uma que era submissa ao governo de Onganía, e outra que pelo contrário, era combativa contra o próprio. No entanto, a agitação em Córdoba já era influenciada pelas manifestações que ficaram conhecidas como “Correntiazo” (Corrientes) e “Rosariazo” (Rosário), onde estudantes universitários exerceram uma série de protestos contra o aumento do preço das refeições dos restaurantes universitários. Em ambas as cidades a repressão policial foi forte, chegando a ocorrer mortes, uma em cada cidade. A mesma violência seria visto em uma proporção muito maior em Córdoba.

    Os trabalhadores se organizaram por volta das dez horas da manhã do dia 29, “descendo” para o centro da cidade. Não demorou muito para milhares de pessoas terem se juntado a manifestação, principalmente estudantes universitários. Os confrontos começaram logo cedo, com a polícia batendo em retirada no início da tarde, fazendo guarda apenas nos prédios governamentais mais importantes, como a delegacia, as prisões e o palácio do governo. Mais de cem quarteirões da cidade ficaram sob controle direto da população, com as sedes das grandes empresas sendo ocupadas. Antes do início da noite os militares adentraram novamente na cidade e assim se seguiu uma violência extrema, ocorrendo mais de 400 pessoas feridas e dezenas de mortos, com estimativas chegando a 50 pessoas, além dos milhares de detidos. O impacto do Cordobaço no país foi enorme, expondo a fragilidade social que a Argentina vivia, muito pelas políticas repressivas de Onganía, não sendo forçado dizer que essas greves em todo seu conjunto foi o principal fator da derrocada dos militares.

    Neste cenário, o então ministro de economia, Adalbert Krieger Vasena, no cargo desde o início da ditadura, colocava a Argentina nas berlindas do liberalismo. Isso até 1970, quando saiu do controle junto com seu cúmplice, Onganía, quando os militares lançavam um golpe interno. Vasena, seguindo a abordagem de abrir a economia para o capital estrangeiro, prejudicou a burguesia nacional, perdendo um forte apoio para a ditadura de Onganía, que ficou mal das pernas após 1969. Ironicamente, após o Cordobaço, perguntado sobre quanto tempo ficaria no poder, Onganía respondeu: “Dez anos!”. Menos de um ano depois, em 1970, Alejandro Agustín Lanusse, comandante em chefe das forças armadas, colocava Norberto Marcelo Levingston no poder da ditadura. Devido a desestabilização do país, Levingston não durou muito tempo, sendo substituído pelo próprio Lanusse já em 1971. Uma das ações notáveis de Levingston foi ter colocado Aldo Ferrer como ministro da economia, que a guinou para uma nacionalização, visando agradar a burguesia argentina. Perón, aliado a várias frentes, sindicais ou guerrilheiras, pressionava a ditadura. Os já mencionados Montoneros, trabalhando em conjunto com a liderança peronista, haviam sequestrado e executado nomes como Aramburu, general que junto com Lonardi derrubou Perón em 1955, e o sindicalista Augusto Vandor, antigo aliado de Perón que se voltou contra as novas ideias peronistas. Lanusse não prolongou a então ditadura que tinha destino selado. Em 1973 uma suposta democratização voltou ao país, nas mãos de uma mega aliança peronista.

    A burguesia observava nas agitações populares um perigo para si mesma. Não é atoa que em todos os golpes da segunda metade do século XX, me arrisco a dizer que até os da primeira metade, o exército buscava o controle quando a população começava a entender a poder que tem em si, sendo o escape para a fragilidade da elite dominante, que não conseguia se organizar politicamente. A dualidade das relações é notável, ficando mais evidente na ditadura de 1976 com a invasão das ilhas Malvinas (literalmente uma guerra contra o Reino Unido, o maior aliado dos EUA, que até então financiava os regimes de terror da Argentina), nos mostrando que a linha política, mesmo que aliada do ponto de vista ideologico, não será linear, sem conflitos. Isso também é visto nas relações entre Perón e os grupos de esquerda, que, como principais representantes da oposição ao governo militar em solo argentino, serviram como grandes aliados durante todo o período de 1955 até 1973. Para que em 1973 até 1975 fossem perseguidos pelos próprios peronistas, sendo este agora também dividido.

    Bibliografia e referências

    BRA, Gerardo. El gobierno de Onganía. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina. 2001.

    COGGIOLA, O. Governos Militares Na América Latina. São Paulo: Editora Contexto, 2001. p. 116.

    CRIVELENTE, M. R.; KOBASHI, N. Y.; JATENE, C. V.; OLIVEIRA, L. Memória e Resistência, c2017. Estudo e difusão de informações sobre as Ditaduras Civis-Militares na América Latina e sobre os lugares de construção da memória dessas ditaduras. Disponível em: https://memresist.webhostusp.sti.usp.br/.

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    SADER, E. (ED.). Latinoamericana: enciclopédia contemporanêa da América Latina e do Caribe. São Paulo: Boitempo, 2006. p. 1472.